28/07/08

terra devastada (4)



porta


uma porta sem gente é uma porta com coisas dentro. é tão a porta sem a casa como a gente sem portas para entrar. é a porta a existir como possibilidade de não o ser. no limite, é uma entrada que não se atalha nunca, que não se sabe nunca se é entrada porque não se experimentou jamais essa condição entre o que está antes e o que está depois. ainda assim é uma entrada. tem nome de entrada e de porta que lhe dão as pessoas mas não tem gente. as pessoas ficam à porta, à entrada. não entram porque têm medo ou por outra coisa qualquer. tem coisas dentro a entrada e a porta. coisas que não são das pessoas e por isso essas coisas as pessoas não podem nem devem ver porque as não compreenderão nunca. não as verão sequer. as coisas são das pessoas o que resta. essas coisas que ficam para trás e que as pessoas pensam que não são suas porque as largaram no meio do caminho. o caminho também é gente. não entraram pela porta as pessoas porque pela porta nunca nada passou a não ser as coisas antes de serem coisas. e antes disso não coisas, eram nada. mas estão lá, depois da porta, até que sejam novamente nada e passem a ser das pessoas outra vez. mas só se as pessoas deixarem de ter medo ou outra coisa qualquer e entrarem pela porta e a porta deixar de ser uma porta com coisas dentro.

2 comentários:

Gustavo A. B. disse...

Gostei muito de mais esta porta aberta para os mundos multifacetados e de engenhosa eloquência desta escrita única. Que falta vão fazer estes traços de infinito nos dias próximos da ausência!... Até breve, se possível

sandra g.d. disse...

Obrigada amigo Gustavo, sempre pela presença e pelas palavras. Não haverá ausência. Um abraço amigo