17/02/09

e digo nuvens (8)


a última nuvem é a última nuvem que fica no último céu. não sei onde caberá uma nuvem como essa que sendo a última tem de durar até que o último céu seja o último, já sem nuvens, já se sabe que terá que durar muito, que é esse o último céu e o último é sempre o que espera mais porque tem de esperar desde o início. o céu que já não tem as nuvens é assim só céu por isso e excessivamente a ocupar o lugar portanto onde antes estiveram as outras nuvens. às vezes de noite sonho que vejo a última nuvem e ela é uma nuvem como outra qualquer. só é a última porque não haverá mais nenhuma depois dela. e nesse sonho o mundo depois não tem mais nuvens, porque não acordo logo e ainda consigo ver como é o mundo que não tem nuvens e que é o último mundo também, o último mundo a ser o último e sem as nuvens já. é um mundo aparente só, onde todas as coisas se passam só como se se passassem. é um mundo triste, ainda mais sim, desde já vos digo, muito mais, aliás. triste no sentido de nada acontecer de facto. e tudo isso, ou o nada, portanto, o nada de nada ser, em que nada é o nada em si sendo já alguma coisa mas que é nada por não poder ser mais nada, se deve ao facto de não haver nuvens que transformem as coisas em sonhos e porque um mundo depois sem sonhos é um mundo sem nada, ou com mais nada além do nada que é a possibilidade de ser o que tinha sido ou que seria se antes do último céu do último mundo não tivessem sido primeiro as últimas nuvens. o último céu antes de ser o primeiro sem as nuvens, contei no sonho, é o oitavo. portanto, vos digo, quando contarem o oitavo céu a partir da primeira nuvem, não se esqueçam de sonhar que não haverá jamais nenhum céu sem nuvens.

12/01/09

e digo nuvens (7)



gosto de nuvens. porque ora gosto. não tem de haver porquê, porque gostamos de tudo e não gostamos de nada e nos faz impressão só termos que gostar de umas coisas e de outras não. não quero saber. das nuvens só há que gostar que não há como não gostar. é um amor assim tão forte de doer de não querer outra coisa se não as nuvens primeiro antes de tudo o resto. e viver só delas, morrer de fome e andar ao frio à lua, sem sono, cheios de saudades para as ver só a nascer e a morrer e a abraçarem-se umas às outras, a amarem-se elas umas às outras, a fazer amor como é bonito no céu e nós cá de baixo a querer fazer amor como elas, com elas, dentro delas, em cima delas também pode ser. e como numa canção sem princípio nem fim, “Vicente Amigo & El Pele”, pode ser essa que podia ser o som das nuvens a dançarem umas com as outras e ainda elas estarem sempre a fazer amor. fazem amor assim como se nunca começassem nem nunca terminassem nunca, que esse é o verdadeiro amor. como quase assim é o verdadeiro amor o que tenho pelas nuvens. gosto delas, já disse.

09/12/08

e digo nuvens (6)




não vejo as nuvens. estou dentro delas. porque as tenho diante dos olhos, dentro dos meus, adiante e diante, e como eu estou, estando, estou dentro delas. quando não tenho mais lugar nenhum para onde ir, vou para dentro das nuvens. é onde estou quando não estou em mais lado nenhum. é quando não as vejo porque estou dentro delas. as nuvens são um lugar bom para se estar. não precisamos de andar a fazer de conta que andamos nas nuvens porque andamos mesmo e nelas não precisamos de dizer olhem estou aqui porque estou e ninguém mais me vê e ninguém pergunta mas estás mesmo nas nuvens? estou, estou mesmo nas nuvens, não estás a ver que estou? quando estou mesmo nas nuvens não respondo a perguntas dessas porque ninguém me faz perguntas. sou eu que faço as perguntas todas. e então pergunto-me porque estou dentro das nuvens, mas faço só por fazer porque é um estado natural de se estar assim lá dentro, e não estou noutro lado qualquer. porque estou e é onde estou que nunca estive noutro sítio que fosse as nuvens assim como este sítio em que não vejo que não seja o que está dentro das nuvens e que não pergunto o que é, essa pergunta não faço, porque é o que estou a ver e o que os olhos vêem não dizem as palavras porque estas outras só usamos para dizer do que não está dentro das nuvens, tudo o resto. e não vale a pena perguntarem-me o que vejo dentro das nuvens porque só vos diria que vejo o que elas têm lá dentro para além de mim que é o que está entre as nuvens que eu não vejo porque estou dentro delas e o que está fora de mim. só vejo isto e não vejo mais nada e já é tanto de ser que quando sair delas não vou saber dizer mais nada.

13/11/08

e digo nuvens (5)




o céu disse: as nuvens cabem todas aqui. quantas as nuvens forem. o céu tem espaço. as nuvens dissolvem-se no espaço que o céu tem porque é tanto e mais o espaço e de tanto sobrar o espaço não há depois lugar para tanto céu. mas isso é outra conversa. é a conversa que fica para além do céu, onde o céu não está. porque no céu onde estão as nuvens, as nuvens que o céu tem, tem dentro o espaço, onde estão as nuvens antes, durante e depois do céu. e depois as nuvens no fim também e o espaço a mais que o céu ainda tem para as nuvens onde estarão as outras nuvens que não estão ainda. essas as nuvens são que não estão ainda no espaço do céu. quando findar o céu, findam as nuvens. e finda o céu quando as nuvens findarem. quase ao mesmo tempo. entre uma coisa e a outra, no curto espaço tempo do céu sem as nuvens, o céu estará tão cheio de lugar para as nuvens que nele não caberão nem as estrelas nem os outros astros todos. e nem mesmo os buracos negros. e será só o céu. os vinte e três segundos do céu antes de se dissolver ele também tão cheio demais de imensidão.

e digo nuvens (4)




as nuvens não têm nada por dentro afinal. parece que têm os sonhos todos e que sempre os vemos lá dentro quando os sonhamos mas os sonhos são demasiado grandes para estarem dentro das nuvens. não sei bem onde estão. como não sei onde estão os sonhos outros que não estão em lado nenhum. os sonhos outros que nunca ninguém sonhou, os sonhos outros que nunca ninguém teve coragem de sonhar. mas nesses não pensamos muito. eu só penso neles de vez em quando, quando não penso nestes em que pensamos e que não cabem nas nuvens. mas as nuvens são grandes afinal mas são pequenas para os sonhos. mas ainda lá cabem os sonhos, os nossos sonhos que não são lá muito grandes e que são do tamanho das nuvens. podiam ser maiores, como as nuvens podiam ser maiores se lá dentro lhes puséssemos os sonhos que não conseguimos sonhar.

29/10/08

e digo nuvens (3)




inventei as nuvens. inventei as nuvens a partir de uma história que não começava nem acabava. ainda estou a escrever a história. nunca a comecei verdadeiramente porque quando nasci, nasci a contá-la. inventei as nuvens por causa das coisas leves que precisamos inventar de vez quando. a Terra pesa muito no espaço. a Terra não cai profunda no infinito porque tem as nuvens à volta dela. às vezes não sei se as inventei, se elas existem mesmo. mas tenho a sensação verdadeira que existem. quando não tenho a sensação, quando ela não está em mim, invento as nuvens outra vez. acho que as inventamos todos. e por isso é que variam tanto de tamanho e feitio. tenho a sensação que as nuvens existem para ser inventadas. uma vez, e outra e outra. e no dia em que deixarmos de o fazer, a Terra vai cair profunda e nunca mais saberemos dela. com um bocadinho de sorte ficamos nas nuvens a vê-la cair em direcção ao abismo, que, já agora, eu não faço a mínima ideia o que seja. mas se ficar nas nuvens, também não preciso de saber.

26/10/08

e digo nuvens (2)



o acto de pensar as nuvens. o mundo parece que anda à nossa volta. mas dentro dele é que estamos. as nuvens enganaram-se no lugar que escolheram para elas. faz de conta que podemos pensar pelas nuvens. os olhos estão a mais. o acto de pensar as nuvens. o céu tinha-vos antes de vos termos nós. antes de o céu ser com as nuvens já vos tinha e nós não tínhamos nada. andávamos a inventar coisas parecidas com as nuvens. o acto de pensar pelas nuvens. estamos paradas. eles é que giram. estão como que a andar nos nossos olhos. os olhos deles têm as estrelas dentro mas nós é que estamos aqui. o acto de pensar as nuvens. as estrelas estão ali mas estão atrás das nuvens. são as nuvens que vemos. as estrelas imaginamos que vemos. as nuvens as que temos são as que estão em vez das estrelas. e através das nuvens digo, dizemos, digo as nuvens, as estrelas existem e nós existimos também porque nos dão as nuvens aqui e a imaginação das estrelas ali a sensação de estar no mundo.

19/10/08

e digo nuvens




estão as nuvens onde o céu as pôs. ao acaso que é a orientação de todas as nuvens e onde estão infindáveis, repetindo-se umas às outras. dentro e fora do tempo são as nuvens as latitudes baralhadas e o céu impossível para elas. temos o rosto devorado de olhar as nuvens. não nos olham nunca as nuvens porque se dissolveriam vertiginosamente e então o mundo acabaria. somos nós que as olhamos porque imponderados não lhes respeitamos o lugar. o lugar admirável que é delas e que toda a vida cobiçamos.

16/09/08

terra devastada (6)



a luz toda por dentro #2

a luz toda se fundiu e como uma só, foi. de dentro da luz nasceram as palavras para estar como luz em redor das coisas. as coisas todas passaram a ter a luz e depois também as palavras para que as coisas deixassem de ser coisas. depois, depois de em tudo terem estado, foram as palavras luz num lugar quieto onde estas ainda não tinham estado, e deu-se a surpresa nas palavras de nada terem para dizer no lugar onde nunca tinham estado. e foi esse lugar com luz e sem palavras, assim como está, e as palavras foram, numa espécie de nascimento outra vez, com a luz por dentro em todos os outros lugares, sem nada precisarem de ser mais.

terra devastada (5)




a luz toda por dentro

nasceu o dia outra vez da noite e a luz começou do princípio para o dia. um dia sem a luz nasceu para a luz ser o dia no lugar do escuro. a luz então foi luz por dentro das coisas. em tudo onde havia o escuro entrou e onde não estava mais a luz, passou a luz a estar, nesse dia e depois em todos os outros que se seguiram. a luz ninguém quis ver por ser o escuro a cor de todas as coisas que os olhos olhavam. mas não olhavam os olhos a luz com medo de a ver dentro das coisas e as coisas assim deixarem de ser coisas e passarem a ser luz. mas havia ainda a luz própria das coisas que sempre esteve lá, independentemente dos olhos que não a queriam ver, e nessa luz estava a profundidade que era escuridão negra, noite como breu e ainda mais noite outra vez. e essa luz outra que é a escuridão no fim foi a luz que entrou num lugar que já era a escuridão do fim da luz por ter antes então tido luz a mais e depois ter ficado a precisar do escuro que é do que não é luz somente. no lugar onde só houve escuro muito tempo a luz entrou por acaso, que é por acaso que as verdades verdadeiras acontecem. no escuro de muito tempo a luz que era do princípio do dia entrou e ficou. ficou. ficou. até o escuro se misturar com a luz e a luz ter sido tudo o que aconteceu nesse lugar.

28/07/08

terra devastada (4)



porta


uma porta sem gente é uma porta com coisas dentro. é tão a porta sem a casa como a gente sem portas para entrar. é a porta a existir como possibilidade de não o ser. no limite, é uma entrada que não se atalha nunca, que não se sabe nunca se é entrada porque não se experimentou jamais essa condição entre o que está antes e o que está depois. ainda assim é uma entrada. tem nome de entrada e de porta que lhe dão as pessoas mas não tem gente. as pessoas ficam à porta, à entrada. não entram porque têm medo ou por outra coisa qualquer. tem coisas dentro a entrada e a porta. coisas que não são das pessoas e por isso essas coisas as pessoas não podem nem devem ver porque as não compreenderão nunca. não as verão sequer. as coisas são das pessoas o que resta. essas coisas que ficam para trás e que as pessoas pensam que não são suas porque as largaram no meio do caminho. o caminho também é gente. não entraram pela porta as pessoas porque pela porta nunca nada passou a não ser as coisas antes de serem coisas. e antes disso não coisas, eram nada. mas estão lá, depois da porta, até que sejam novamente nada e passem a ser das pessoas outra vez. mas só se as pessoas deixarem de ter medo ou outra coisa qualquer e entrarem pela porta e a porta deixar de ser uma porta com coisas dentro.

22/07/08

terra devastada (3)


por vezes o espanto


não temo. o que espreita o vidro, a rasura, dentro de mim exposto. sou a boca do lugar a que chega a repetição do estilhaço que é o fragmento informe de uma coisa completa, absorta na sua expectativa de unidade. o lugar perto de mim, por entre a urdidura de mil possibilidades em velocidade, no atordoamento do espanto em volta, em circunferência, em desnível a esclarecer a gravidade. não temo, ora. por vezes o espanto. por vezes a dor. por vezes o corpo todo na boca. por vezes o enredo de uma só palavra mal entendida, estilhaçada no lugar da dor. como o corpo nessa dor depois.

14/07/08


terra devastada (2)




trilogia a partir de .23


metodologia do Antes de não ser nada: os objectos antes de o serem, tentativas constrangidas na circunstância. antes de tempo morrendo, o tempo deles, sendo o tempo, o tempo nosso, como lugar por preencher, espaço permanentemente inabitado porque sem nada dentro que os determine na configuração do que são.


metodologia do Durante de não ser nada: os objectos distantes do lugar, casuais no acontecimento que se dá sem eles. os objectos vastíssimos na desilusão a atentar contra o fim que os submete como espectros sem histórias mais nenhumas. objectos inquietos, purificados no que a razão lhes permite de serem a atrocidade de existir como ensaio de coisa alguma, que enfim são como coisa que alguma não seria.


metodologia do Depois de não ser nada: o silêncio dos objectos que nada dizem de ser tanto.

01/07/08

terra devastada (1)


intenção (exercício)




tentativa de definição da intenção: objecto reflectido na complexidade a imitar o que não tem nada dentro. nada a sobrar além do estilhaço nesse exercício de intentar contra a multiplicação das perspectivas. perspectivas que não se cumprem porque não chegam a deixar de o ser. a intenção das perspectivas que se confundem com o antecedente delas, o instante antes da perspectiva. ele mesmo, o instante desmesurado que não tem de si nada além da intenção que lhe é de se multiplicar nas perspectivas que são depois do instante. definição do instante na perspectiva que é a complexidade no instante. guerra além da guerra na perspectiva depois da guerra sem instante dentro. espaços sem perspectiva, reduzidos ao acaso que o instante lhes causou como tempo que sem tempo é.

hipótese de definição: instante da guerra na perspectiva do tempo.

04/06/08

Cada anjo é terrível (7)


da imperfeição #3

um segundo apenas de perfeição improvável.